A Geórgia, no sul dos Estados Unidos, há algum tempo se tornou um grande polo para a indústria cinematográfica americana, ficando conhecida como a Hollywood do Sul. Isso se deve graças à lei de incentivo fiscal adotada na região – uma isenção da ordem de até 30% -, que impulsionou o estado, mais especialmente a cidade de Atlanta, à posição de terceiro maior centro de produção de cinema, e também de televisão, do país, atrás apenas de Los Angeles e Nova York, respectivamente. Em 2018, mais de 90 mil postos de trabalho relacionados ao setor foram criados, impactando a economia local em mais de US$ 9 bilhões.

No entanto, os grandes estúdios de cinema estão considerando seriamente a possibilidade de encerrar essa exitosa colaboração com a Geórgia. O motivo alegado pelas corporações é a aprovação da lei antiaborto, sancionada em 7 de maio pelo governador Brian Kemp, do partido republicano, seguindo a adoção de legislações similares por parte de estados vizinhos como Alabama, Missouri e Luisiana. A lei, que proíbe a prática de interrupção da gravidez após seis semanas de gestação, é um trunfo de setores conservadores para revogar uma decisão tomada pela Suprema Corte em 1973, no caso Roe contra Wade, que reconheceu o direito ao aborto ou interrupção voluntária da gravidez em todo o país. Apesar disso, de acordo com a Constituição Americana, cada estado tem autonomia para legislar em relação à matéria.

A WarnerMedia, em comunicado enviado à AFP, anunciou:

“Acompanharemos de perto a situação e, caso a nova lei seja mantida, reconsideraremos a Geórgia como sede de qualquer nova produção.”

A NBC Universal disse esperar que essa lei – também conhecida nos EUA como a “lei dos batimentos cardíacos fetais” – encontre “sérios desafios legais” e que não passe a vigorar “enquanto o processo continuar nos tribunais”. A organização ainda acrescentou:

“Se alguma dessas leis for ratificada, isso teria um forte impacto no processo de tomada de decisões dos lugares onde produziremos nosso conteúdo futuro.”

Sony Pictures afirmou, por meio de um porta-voz, que a empresa ficará atenta às contestações legais à lei do aborto e agirá de acordo com elas:

“Continuaremos monitorando esse processo em estreita consulta com nossos cineastas e roteiristas de TV, talentos e outras partes interessadas, enquanto considerarmos nossas futuras opções de produção.” 

AMC Networks, que rodou a série “The Walking Dead” na Geórgia, também fez coro com Warner, Universal e Sony. Além dessas, Disney e Netflix já haviam manifestado a intenção de deixar o estado caso a lei antiaborto realmente passe a vigorar, como está previsto, a partir de 2020. Algumas produções importantes dessas empresas, como os filmes “Pantera Negra” e “Vingadores: Ultimato”, bem como a série “Stranger Things”, foram rodadas em locações da região. Em comunicado, Ted Sarandos, o CEO da Netflix declarou:

“Temos muitas mulheres trabalhando em produções na Geórgia, cujos direitos, juntamente com milhões de outros, serão severamente restringidos por esta lei. Por isso, iremos trabalhar com a ACLU [União Americana pelas Liberdades Civis] e outros meios para lutar contra isso no tribunal. Como a legislação ainda não foi implementada, continuaremos a filmar por lá, além de apoiar parceiros e artistas que preferirem não fazer isso. Se isso passar a vigorar, repensaremos todo o nosso investimento na Geórgia.”

Bob Iger, CEO da Disney, enfatizou à agência Reuters que essa controversa lei torna difícil para a empresa continuar filmando na Geórgia. Ele afirmou que muitas pessoas que trabalham para a Disney não irão querer trabalhar por lá caso a lei entre em vigor, e esses pedidos não poderão ser ignorados. Nas suas palavras:

“No momento, estamos observando com muito cuidado, mas não vejo como viável continuar filmando por lá.”

Além da ameaça dos estúdios, outros membros da indústria do entretenimento já têm dado início a um processo de boicote ao estado. Atores como Ben Stiller, Christina Applegate e Alec Baldwin escreveram ao governador Kemp solicitando uma reconsideração da decisão. A atriz Kristen Wigg informou à CNN que sua nova comédia, que seria rodada na Geórgia, teve as filmagens canceladas por esse motivo. O ator Jason Bateman declarou ao The Hollywood Reporter que não iria “trabalhar na Geórgia, ou em qualquer outro estado que seja tão contra os direitos das mulheres”.

Para se ter noção do quão importante a parceria entre Hollywood e Geórgia tem sido importante para ambas as partes nos últimos anos, segundo o site FilmLA, dos 100 longas-metragens lançados nos EUA em 2017, 15 foram filmados naquele estado. Com base nisso tudo, ainda é muito cedo para se vislumbrar como será definido todo esse imbróglio, mas uma coisa é certa, a polêmica está apenas começando.