Em 2014, a produtora americana Legendary Pictures, em parceria com a empresa japonesa Toho, e com a Warner Bros., trouxe de volta às telonas, por meio do filme “Godzilla” – um reboot da produção hollywoodiana de 1998 -, um dos personagens de origem oriental mais icônicos entre aqueles que se tornaram populares no Ocidente. Na época, o longa recebeu comentários negativos do público em virtude da ousada decisão narrativa de dar maior ênfase aos conflitos humanos, esses decorrentes da destruição causada pelo personagem-título, em detrimento de um maior destaque ao próprio monstro, algo até então inédito nos filmes do gênero. Mas, a despeito da controversa recepção junto aos espectadores, a obra foi bem recebida pela crítica especializada, além de obter uma bilheteria boa o suficiente para bancar o início do MonsterVerse, o universo de monstros criado pela Warner que, em 2017, lançou “Kong – A Ilha da Caveira”, e agora, em 2019, Godzilla II – Rei dos Monstros, a terceira parte, porém sequência direta da primeira. O intuito é reunir, numa quarta aventura, os dois principais personagens desse universo, o que se dará em “Godzilla vs. Kong”, que, a princípio, será lançado em 2020.

A trama de “Godzilla II – Rei dos Monstros” mostra os esforços da organização Monarch, uma agência cripto-zoológica, tentando conter o avanço destrutivo, pelo planeta, dos Titãs – que, na cultura pop, também são conhecidos pelo termo japonês Kaijus -, criaturas primitivas e colossais que ressurgem no presente depois de serem mantidas em segredo por séculos, e que a humanidade, agora em risco iminente de extinção, imaginava se tratar apenas de lendas e mitos antigos. Entre as terríveis criaturas que dão o ar de sua graça na história, além do próprio Godzilla, um réptil radioativo aquático e terrestre com proporções descomunais, aparecem: o pterossauro Rodan, uma criatura adormecida em um vulcão, que é considerado “Rei dos Céus”; a mariposa Mothra, a “Rainha dos Monstros”, considerada uma deusa por antigas civilizações; e o dragão de três cabeças King Ghidorah, uma entidade recém-descoberta chamada de “Monstro Zero” – todos já retratados em filmes solos produzidos no Japão desde as décadas de 50 e 60. Esses monstros lutarão entre si para determinar quem é o verdadeiro rei.

Dirigido e roteirizado por Michael Dougherty (“Krampus”), “Rei dos Monstros” talvez seja o filme de Kaiju mais bem-sucedido em tentar equilibrar na mesma narrativa tanto os titânicos embates das imensas criaturas quanto as consequências devastadoras desses confrontos segundo a perspectiva humana. A exemplo do filme de 2014, os personagens humanos continuam recebendo bastante destaque, a diferença é que, dessa vez, as brigas dos titãs não ficam apenas em segundo plano. As cenas de luta acontecem numa escala épica e constante, condizente com a ação exigida nesse tipo de filme, contribuindo assim para a imersão do espectador; porém, muitos desses momentos são atrapalhados por um excesso de cortes secos em sequências cuja transição de um momento de luta entre monstros para um diálogo qualquer entre seres humanos soa abrupta, desnecessária e anticlímax, além de o uso de planos muito fechados impedir, por vezes, uma visualização melhor dessas grandes batalhas. No entanto, apesar das falhas pontuais, a direção é hábil na condução de cenas em que a presença de algum titã é apenas sugerida, criando um ótimo clima de tensão e suspense que só aumenta ainda mais a expectativa pelo horror que está por vir.

O longa acerta no design das criaturas: embora concebidos exclusivamente por meio de CGI, os monstros têm, na medida do possível, verossimilhança em seu aspecto físico, apresentando na textura de pele alguns detalhes que só engrandecem sua presença em cena. A fotografia lembra, para o bem e para o mal, aspectos da filmografia de Zack Snyder. Utilizando-se artificialmente de elementos naturais como chuva, neve e fogo, o filme acerta ao reproduzir em tela algumas imagens que, de tão belas, bem poderiam ser emolduradas em quadros numa parede. Por outro lado, o longa erra ao conceber cenas em que o excesso de luzes e raios coloridos contrasta com cenários muito escuros, criando uma certa confusão visual. Outro aspecto técnico de extremo bom gosto é a belíssima trilha sonora, criada pelo músico americano Bear McCreary, que, entre outras características, mistura sons semelhantes aos de vários atabaques à ladainhas orientais similares a cânticos cerimônias tribais, reverenciando assim o aspecto divino conferido pelos personagens humanos às criaturas – infelizmente, por vezes, a trilha termina ofuscada por cenas de ação muito barulhentas.

A cena em que a direção mais acerta em calibrar todos os bons aspectos técnicos do filme em uma única sequência é certamente a que promove a primeira aparição de Rodan, num momento em que toda a beleza da fotografia, a imponência da trilha sonora, o ótimo design do monstro, a carga dramática contida nessa parte do roteiro e a intensidade da ação constroem o momento mais marcante do longa. Ponto também para a primeira aparição de King Ghidorah, que, de cara, já demonstra a terrível ameaça que aquela hedionda figura é capaz de oferecer.

Em relação ao roteiro como um todo… bom, pode-se resumi-lo em uma única palavra: péssimo. Apesar de ter um ótimo elenco, e de muitos atores defenderem bem, tanto quanto possível, seus papéis – como o fazem Vera Farmiga, Kyle Chandler e Ken Watanabe, por exemplo -, o maior problema está mesmo nos personagens, que agem das formas mais absurdas e inexplicáveis possíveis – em alguns momentos, suas decisões são bem idiotas mesmo. Sally Hawkins, que há pouco tempo foi indicada ao Oscar de melhor atriz por sua participação em “A Forma da Água”, está totalmente subaproveitada, enquanto a personagem vivida por Millie Bobby Brown, a Eleven de “Stranger Things”, é mais um fator de desabono à obra, já que sua presença em cena soa sempre forçada – as situações que a envolvem são claramente construídas de forma a dar a ela um protagonismo que, desastrosamente, não soa nem um pouco natural, e o máximo que consegue é somente irritar. Além de um vilão, vivido por Charles Dance, que não assusta ninguém, há ainda um excesso de personagens coadjuvantes que servem apenas para dizerem frases de efeitos ou repetirem explicações técnicas desinteressantes – ou ainda, para, supostamente, servirem de alívio cômico, o que, obviamente, não funciona, já que as piadas são sempre sem graça e totalmente fora de contexto. Se não bastasse tudo isso, a trama ainda apresenta, em relação aos monstros, um tal de “morre e ressuscita” tão recorrente que faz qualquer peso dramático se esvair completamente da narrativa – para se obter uma melhor experiência nesse sentido, talvez seja mais adequado não procurar maiores explicações a respeito e apenas aceitar com certa resignação as que são fornecidas, mesmo que ao fim se chegue à conclusão de que, ainda assim, nada foi entendido.

Por fim, “Godzilla 2 – Rei dos Monstros” se encaixa muito bem naquela velha máxima, nem sempre verdadeira, de que, para se ter uma experiência minimamente satisfatória ao assistir a um grande blockbuster, a melhor coisa a se fazer é “desligar” o cérebro e curtir apenas o espetáculo visual, que, neste caso em especial, consegue, na maior parte das vezes, compensar a sessão, sobretudo pela belíssima batalha final envolvendo todas as principais criaturas do filme.